Monday, May 5, 2008

Decisões

Desta vez quis antecipar aquilo que considerara inevitável, controlar, pensava eu, o decurso das coisas, como se tal fosse possível, e assim evitar mágoas e sofrimentos.

A questão é que, por medos e receios cuja existência afinal não consigo provar, pelo menos ainda, precipitei-me numa decisão que pensei que me poupasse o tal sofrimento. Só que, ao contrário do que pensei, essa decisão revelou-se tão ou mais penosa que a vulnerabilidade de uma eventual exposição de sentimentos.

Na ânsia de evitar desilusões passadas temo ter feito juízos precipitados e ter fechado a porta a alguém ...

Wednesday, April 30, 2008

Blindness - O pior cego é aquele que não quer ver

É um dos meus livros preferidos de sempre e um inquietante questionar sobre o que é a civilização humana, na ausência da lei e da ordem - o que somos nós, afinal, perante o caos.

A adaptação para cinema do livro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, vai abrir a edição deste ano de Cannes. O filme é dirigido por Fernando Meirelles, o realizador de "Cidade de Deus" e "Fiel Jardineiro". E o trailer já pode ser visto aqui - http://www.blindness-themovie.com/

Espero ansiosa pela sua estreia, ainda que um tanto ou quanto receosa no que respeita à fidelidade da reprodução para o ecrã da essência ensaísta e filosófica do livro.

Friday, March 21, 2008

He's Here

Apesar de muito se poder dizer da coerência do alinhamento, até agora, este ano é o Optimus Alive! que me está a encher as medidas. Depois de ter formulado o desejo em voz alta de que «bom bom era se os Rage Against The Machine viessem cá também» (meados de 2007) ou «um concerto que gostava mesmo de ver era o do Neil Young; isso é que era um ganda concerto» (final de 2007, início de 2008), eles aí estão, ou estarão, a 10 e 12 de Julho, respectivamente, em Algés.

Não me lembrei de pedir o Dylan (11 de Julho), porque já nem o contava ver por aqui (e dificilmente por aí), mas voilá, que venham esta e muitas outras:

Hurricane

Pistol shots ring out in the barroom night
Enter Patty Valentine from the upper hall.
She sees the bartender in a pool of blood,
Cries out, "My God, they killed them all!"
Here comes the story of the Hurricane,
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done.
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world.

Three bodies lyin' there does Patty see
And another man named Bello, movin' around mysteriously.
"I didn't do it," he says, and he throws up his hands
"I was only robbin' the register, I hope you understand.
I saw them leavin'," he says, and he stops
"One of us had better call up the cops."
And so Patty calls the cops
And they arrive on the scene with their red lights flashin'
In the hot New Jersey night.

Meanwhile, far away in another part of town
Rubin Carter and a couple of friends are drivin' around.
Number one contender for the middleweight crown
Had no idea what kinda shit was about to go down
When a cop pulled him over to the side of the road
Just like the time before and the time before that.
In Paterson that's just the way things go.
If you're black you might as well not show up on the street
'Less you wanna draw the heat.

Alfred Bello had a partner and he had a rap for the cops.
Him and Arthur Dexter Bradley were just out prowlin' around
He said, "I saw two men runnin' out, they looked like middleweights
They jumped into a white car with out-of-state plates."
And Miss Patty Valentine just nodded her head.
Cop said, "Wait a minute, boys, this one's not dead"
So they took him to the infirmary
And though this man could hardly see
They told him that he could identify the guilty men.

Four in the mornin' and they haul Rubin in,
Take him to the hospital and they bring him upstairs.
The wounded man looks up through his one dyin' eye
Says, "Wha'd you bring him in here for? He ain't the guy!"
Yes, here's the story of the Hurricane,
The man the authorities came to blame
For somethin' that he never done.
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world.

Four months later, the ghettos are in flame,
Rubin's in South America, fightin' for his name
While Arthur Dexter Bradley's still in the robbery game
And the cops are puttin' the screws to him, lookin' for somebody to blame.
"Remember that murder that happened in a bar?"
"Remember you said you saw the getaway car?"
"You think you'd like to play ball with the law?"
"Think it might-a been that fighter that you saw runnin' that night?"
"Don't forget that you are white."

Arthur Dexter Bradley said, "I'm really not sure."
Cops said, "A poor boy like you could use a break
We got you for the motel job and we're talkin' to your friend Bello
Now you don't wanta have to go back to jail, be a nice fellow.
You'll be doin' society a favor.
That sonofabitch is brave and gettin' braver.
We want to put his ass in stir
We want to pin this triple murder on him
He ain't no Gentleman Jim."

Rubin could take a man out with just one punch
But he never did like to talk about it all that much.
It's my work, he'd say, and I do it for pay
And when it's over I'd just as soon go on my way
Up to some paradise
Where the trout streams flow and the air is nice
And ride a horse along a trail.
But then they took him to the jailhouse
Where they try to turn a man into a mouse.

All of Rubin's cards were marked in advance
The trial was a pig-circus, he never had a chance.
The judge made Rubin's witnesses drunkards from the slums
To the white folks who watched he was a revolutionary bum
And to the black folks he was just a crazy nigger.
No one doubted that he pulled the trigger.
And though they could not produce the gun,
The D.A. said he was the one who did the deed
And the all-white jury agreed.

Rubin Carter was falsely tried.
The crime was murder "one," guess who testified?
Bello and Bradley and they both baldly lied
And the newspapers, they all went along for the ride.
How can the life of such a man
Be in the palm of some fool's hand?
To see him obviously framed
Couldn't help but make me feel ashamed to live in a land
Where justice is a game.

Now all the criminals in their coats and their ties
Are free to drink martinis and watch the sun rise
While Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell
An innocent man in a living hell.
That's the story of the Hurricane,
But it won't be over till they clear his name
And give him back the time he's done.
Put in a prison cell, but one time he could-a been
The champion of the world.

Wednesday, March 12, 2008

Não conhecia, mas alguém me disse que era muito bonito

A Boca as Bocas

Apenas
uma boca. A tua Boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.


David Mourão Ferreira

Saturday, March 8, 2008

Atonement = Beleza





Um belo filme, na verdadeira acepção da palavra belo. Mas a sua beleza reside em muito na fabulosa e 'oscarizada' banda sonora.




Wednesday, February 6, 2008

Há muito tempo que não me ria assim :))

A FLORESTA, de Aleksandr Ostróvsk

Na Cornucópia


Tradução Nina e Filipe Guerra

Encenação Luis Miguel Cintra

Cenário e figurinos Cristina Reis

Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção

Interpretação

António Fonseca, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, Márcia Breia, João Pedro Vaz, José Gonçalo Pais, José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Rita Durão e Teresa Madruga

Lisboa: Teatro do Bairro Alto. 10/01 a 17/02/2008

3ª a sábado às 21:00. Domingo às 16:00


Uma das comédias mais importantes daquele que tem sido chamado o fundador do teatro russo. Escrita em 1871, A Floresta, traça com delicado humor o retrato de um grupo de personagens numa herdade russa do fim do século XIX, as suas relações, os seus anseios, a sua ignorância, as suas insatisfações, o seu mau viver. Tudo gira em torno da tensão entre o dinheiro e a felicidade. Os ricos não conseguem ser felizes com o seu dinheiro. Os pobres não são felizes porque o não conseguem ter. A proprietária, viúva rica e aparentemente virtuosa, vai vendendo talhões da sua floresta a um mujique enriquecido que lhe corta as árvores para aproveitar a madeira, e guarda o dinheiro para os prazeres com que sonha. Impede a alegria dos que a rodeiam, seus criados e protegidos. Dois actores ambulantes chegam um dia à herdade e vêm perturbar este equilíbrio. Esses, os artistas, têm a ilusão de poderem ser felizes sem dinheiro. Geram-se mais desencontros que encontros em divertidas situações que têm tanto de real como de teatral. Considerada habitualmente como uma "comédia de costumes", a obra tem uma qualidade poética que chega a lembrar Shakespeare na sua capacidade para pôr em cena a vida verdadeira sem nunca "moralizar", para entender os seres humanos nas suas pobres contradições.

Saturday, January 19, 2008

Cândido


O teatro Maria Matos, em Lisboa, estás prestes a estrear uma peça sobre "Cândido", uma das obras mais conhecidas de Voltaire e um dos livros que mais me marcou. A questão da perda da inocência é contada na forma de uma longa aventura a caminho do El Dorado, que leva Cândido a deparar-se com pessoas e situações que vão traduzindo os vários defeitos da humanidade e das sociedades, como a ganância, o cinismo, a ambição, o falso desprendimento, etc. Uma das situações que recordo particularmente é quando Cândido encontra um homem rico, dono de uma mansão faustosa e detentor de uma biblioteca invejável. Com o tal falso desprendimento de quem tudo tem, o sr. desvaloriza as grandes obras que possui no seu acervo e a que Cândido se vai referindo com admiração e espanto.



Essa passagem e a queda do mito do El Dorado - o âmago da história - são apenas algumas das "desilusões" de Cândido. Mas nesta alegoria do iluminista Voltaire contra o fausto do Antigo Regime e os privilégios da nobreza e do clero o livro termina com um renovado optimismo mais prático e menos encantado, numa lição que o velho turco dá a Cândido: a de que nada cai do céu e que é preciso trabalhar, criar e empreender esforço. «O trabalho liberta-nos de três calamidades: o aborrecimento, o vício e a necessidade». Por isso no final Cândido insiste:´«é preciso cultivar o nosso jardim»


A peça "Cândido estreia dia 24 deste mês. A encenação é de Cristina Carvalhal e a tradução e adaptação de Cucha Carvalheiro.


Teatro Maria Matos

24 de Janeiro a 24 de Fevereiro
4.ª a sábado às 21h30 domingo às 17h00
Bilhetes: 15€